O meu nome é João Tavares e sou estudante do 4º ano do Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve. Integrado no Plano Curricular deste último ano está um estágio designado por Elective, onde somos encorajados a sair de Portugal e idealmente da Europa, de modo a experimentar realidades diferentes da nossa.
Por isso, a partir de dia 5 de Janeiro e durante aproximadamente 7 semanas, vou realizar um estágio no Hospital de Gizo, Hospital de Referência da Província Oeste, nas Ilhas Salomão, país onde a população é extremamente pobre e onde os recursos humanos e materiais são muito escassos.

Vai certamente ser uma experiência marcante tanto a nível pessoal, como profissional e que espero me venha a fazer crescer não apenas como médico, mas sobretudo como Ser Humano.

Durante as próximas semanas, vou tentar manter-vos atualizados sobre as principais ocorrências desta "aventura"!

My name is João Tavares and I'm going from Portugal all the way to Gizo, Solomon Islands to spend 7 weeks in a Medical Elective. It will surely be one of the craziest experiences of my life!

Surely is going to an amazing experience both personaly and professional and one which I hope that will help me become a better doctor, and specially a better Human Being.

During the duration of the Elective I will try and keep you updated on the main events of this adventure
.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

As clínicas



Tal como tinha referido no último post, semanalmente, às quartas-feiras, existem visitas a algumas das muitas clínicas situadas na província Oeste, geralmente localizadas em vilas remotas, cujo acesso ao Hospital de Gizo é, no mínimo, complicado, e têm como principal objetivo fazer o follow-up dos doentes crónicos, nomeada e principalmente hipertensos e diabéticos. A viagem é feita de barco e é bastante dura, mas vale bem a pena…
Aqui está o barco em que vamos até às clínicas das outras ilhas...
O dia começa cedo, por volta das 6h30 da manhã, com a concentração perto do antigo hospital, onde estão os barcos que permitem fazer a viagem. Aí juntam-se não só os médicos e estudantes de elective, mas também responsáveis pela farmácia e os próprios “comandantes” das várias embarcações. Apesar de estar prevista a saída antes das 7h da manhã, tal raramente acontece, umas vezes porque o médico X se atrasa outras porque se tem que esperar pelo almoço, que é preparado na cozinha do hospital.

Partem geralmente duas equipas com destinos diferentes, sendo estas normalmente constituídas por um médico, um farmacêutico e, no meu caso, um estudante de elective J não é necessária a ida de um enfermeiro, pois todas estas clínicas têm um enfermeiro.

A viagem é então feita em pleno oceano pacífico, por entre as várias ilhas que constituem a província Oeste das Ilhas Salomão e demora mais ou menos tempo, consoante a distância até à clínica a visitar e também à cavalagem do motor de cada barco (40 ou 70 cavalos). Geralmente as viagens variam entre 45 minutos e 4 horas e conforme o estado do mar, podem ser mais ou menos agitadas e mais ou menos molhadas. Tal como referi no início, a viagem é dura, mas vale o esforço pois à chegada deparamo-nos com uma realidade diferente daquela a que estamos habituados em Gizo e incomparável à realidade do nosso País.


A viagem durou cerca de 1h45 e levou-me até à pequena vila de Pienuna, localizada numa ilha cujo nome agora me escapa, mas que é relativamente próxima de Gizo. Esta ilha tem a particularidade de estar localizada muito próximo do epicentro do grande terramoto que ocorreu em 2007 e que deu origem ao Tsumami que provocou algum caos e destruição na sua passagem e que fez com que a ilha subisse cerca de 2 metros em relação ao nível do mar! Sim, perceberam bem, a ilha subiu em relação ao nível do mar e isso é perfeitamente visível pois agora estão a descoberto rochas que outrora estiveram submersas e que por isso não contém qualquer vegetação, ao contrário do resto da ilha, que sempre esteve acima do nível do mar. 
 
Pienuna é constituída por meia dúzia de casas, todas elas feitas exclusivamente em madeira e com telhados feitos de folhas e outras ervas secas, dispersas por zonas de floresta e pequenos descampados, a apenas alguns metros do mar. 

Todas as casas, com excepção da clínica, encontram-se colocadas sobre pilares de madeira, mais ou menos trabalhados, de modo a que distem cerca de 2 metros do chão, de forma a permitira a passagem de agua por baixo e evitar a sua destruição em caso de tsunami.

Reparem no pormenor dos paus trabalhados em que a casa está suspensa...

O barco parou numa pequena baia situada a cerca de 10 minutos a pé do centro da vila, onde se localiza a clínica. Apesar de curta, a viagem foi bastante tortuosa, uma vez que chovera bastante nos dias anteriores e havia por isso muita lama. 

A clínica de Pienuna foi construída em 1975 e isso é bem visível no seu estado de conservação, já que uma grande parte das janelas já não existe, a tinta das paredes está já muito desgastada e apresenta inclusive algumas rachas de dimensões consideráveis provocadas pelo terramoto de 2007.

A sala de espera da clínica...
Rapidamente a nossa chegada se fez anunciar e várias pessoas começaram a aparecer junto na clínica. Na sua maioria eram pessoas que queriam aproveitar a nossa visita para serem vistas por um médico, pois apresentavam alguma queixa. Havia também alguns doentes crónicos, nomeada e principalmente diabéticos, hipertensos e asmáticos que aproveitaram a ocasião para serem reavaliados. Estes casos são o principal objetivo destas visitas, pois pretende-se com elas atrasar ao máximo todas as complicações inerentes principalmente à hipertensão e à diabetes, pois estes doentes, pela dificuldade que têm em deslocar-se até Gizo, apenas se deslocam ao hospital em último caso, onde acabam com frequência a ficar internados muito tempo e onde os danos já são muitas vezes irreversíveis.

Rapidamente perceberam também que havia um elemento novo na equação… Eu, um sujeito vários tons de pele abaixo da cor natural local e que rapidamente virou foco de atenção de vários curiosos, principalmente das crianças. Mais uma vez pude comprovar a simpatia e a simplicidade das pessoas desta humilde terra, pois não há cara onde não se veja um sorriso ou doente do qual não se oiça uma palavra de agradecimento no final.

Como disse no principio deste post, na equipa consta um farmacêutico, uma vez não existe nenhuma farmácia nesta ilha e portanto qualquer que seja a medicação (de novo ou renovação), tem que fazer parte da pequena que levamos connosco e cujo panóplia de medicamentos é, digamos que escassa. O trabalho do farmacêutico é, não só fornecer a medicação prescrita aos doentes, mas também repor o pequeno stock da clínica local e renovar o receituário dos doentes crónicos que, na sua grande maioria, já estão há várias semanas sem fazer medicação, por esta ter terminado.

A manhã foi longa… a sala que continha apenas uma mesa, algumas cadeiras, uma “marquesa” e nenhuma privacidade permitiu ver cerca de 40 doentes e, dadas todas as limitações, trata-los da melhor maneira possível. Foi sem dúvida uma experiência diferente, mas gratificante. Sem dúvida um dos pontos altos deste elective e que espero ainda ter oportunidade de repetir.

Eu com o Dr. Jilini no nosso consultório bastante privado como podem observar :)
No regresso ao barco tive direito a um pequeno guia, que me acompanhou ao longo de todo o caminho e que fez questão de estar presente até o barco partir. 
Aqui está o meu pequeno guia ;)
Em termos de peso, o barco certamente partiu mais leve, mas eu parti certamente mais rico com esta pequena experiência!

Beijinhos, abraços e até breve *

Sem comentários:

Enviar um comentário