Tal como tinha referido no último post, semanalmente, às
quartas-feiras, existem visitas a algumas das muitas clínicas situadas na
província Oeste, geralmente localizadas em vilas remotas, cujo acesso ao
Hospital de Gizo é, no mínimo, complicado, e têm como principal objetivo fazer
o follow-up dos doentes crónicos, nomeada e principalmente hipertensos e
diabéticos. A viagem é feita de barco e é bastante dura, mas vale bem a pena…
| Aqui está o barco em que vamos até às clínicas das outras ilhas... |
O dia começa cedo, por volta das 6h30 da manhã, com a
concentração perto do antigo hospital, onde estão os barcos que permitem fazer
a viagem. Aí juntam-se não só os médicos e estudantes de elective, mas também
responsáveis pela farmácia e os próprios “comandantes” das várias embarcações.
Apesar de estar prevista a saída antes das 7h da manhã, tal raramente acontece,
umas vezes porque o médico X se atrasa outras porque se tem que esperar pelo
almoço, que é preparado na cozinha do hospital.
Partem geralmente duas equipas com destinos diferentes,
sendo estas normalmente constituídas por um médico, um farmacêutico e, no meu
caso, um estudante de elective J
não é necessária a ida de um enfermeiro, pois todas estas clínicas têm um
enfermeiro.
A viagem é então feita em pleno oceano pacífico, por entre
as várias ilhas que constituem a província Oeste das Ilhas Salomão e demora
mais ou menos tempo, consoante a distância até à clínica a visitar e também à
cavalagem do motor de cada barco (40 ou 70 cavalos). Geralmente as viagens
variam entre 45 minutos e 4 horas e conforme o estado do mar, podem ser mais ou
menos agitadas e mais ou menos molhadas. Tal como referi no início, a viagem é
dura, mas vale o esforço pois à chegada deparamo-nos com uma realidade
diferente daquela a que estamos habituados em Gizo e incomparável à realidade
do nosso País.
A viagem durou cerca de 1h45 e levou-me até à pequena vila
de Pienuna, localizada numa ilha cujo nome agora me escapa, mas que é
relativamente próxima de Gizo. Esta ilha tem a particularidade de estar
localizada muito próximo do epicentro do grande terramoto que ocorreu em 2007 e
que deu origem ao Tsumami que provocou algum caos e destruição na sua passagem
e que fez com que a ilha subisse cerca de 2 metros em relação ao nível do mar!
Sim, perceberam bem, a ilha subiu em relação ao nível do mar e isso é
perfeitamente visível pois agora estão a descoberto rochas que outrora
estiveram submersas e que por isso não contém qualquer vegetação, ao contrário
do resto da ilha, que sempre esteve acima do nível do mar.
Pienuna é
constituída por meia dúzia de casas, todas elas feitas exclusivamente em
madeira e com telhados feitos de folhas e outras ervas secas, dispersas por
zonas de floresta e pequenos descampados, a apenas alguns metros do mar.
Todas
as casas, com excepção da clínica, encontram-se colocadas sobre pilares de
madeira, mais ou menos trabalhados, de modo a que distem cerca de 2 metros do
chão, de forma a permitira a passagem de agua por baixo e evitar a sua destruição
em caso de tsunami.
| Reparem no pormenor dos paus trabalhados em que a casa está suspensa... |
O barco parou numa pequena baia situada a cerca de 10
minutos a pé do centro da vila, onde se localiza a clínica. Apesar de curta, a
viagem foi bastante tortuosa, uma vez que chovera bastante nos dias anteriores
e havia por isso muita lama.
A clínica de Pienuna foi construída em 1975 e isso
é bem visível no seu estado de conservação, já que uma grande parte das janelas
já não existe, a tinta das paredes está já muito desgastada e apresenta
inclusive algumas rachas de dimensões consideráveis provocadas pelo terramoto
de 2007.
| A sala de espera da clínica... |
Rapidamente a nossa chegada se fez anunciar e várias pessoas
começaram a aparecer junto na clínica. Na sua maioria eram pessoas que queriam
aproveitar a nossa visita para serem vistas por um médico, pois apresentavam
alguma queixa. Havia também alguns doentes crónicos, nomeada e principalmente
diabéticos, hipertensos e asmáticos que aproveitaram a ocasião para serem
reavaliados. Estes casos são o principal objetivo destas visitas, pois
pretende-se com elas atrasar ao máximo todas as complicações inerentes
principalmente à hipertensão e à diabetes, pois estes doentes, pela dificuldade
que têm em deslocar-se até Gizo, apenas se deslocam ao hospital em último caso,
onde acabam com frequência a ficar internados muito tempo e onde os danos já
são muitas vezes irreversíveis.
Rapidamente perceberam também que havia um elemento novo na
equação… Eu, um sujeito vários tons de pele abaixo da cor natural local e que
rapidamente virou foco de atenção de vários curiosos, principalmente das
crianças. Mais uma vez pude comprovar a simpatia e a simplicidade das pessoas
desta humilde terra, pois não há cara onde não se veja um sorriso ou doente do
qual não se oiça uma palavra de agradecimento no final.
Como disse no principio deste post, na equipa consta um
farmacêutico, uma vez não existe nenhuma farmácia nesta ilha e portanto
qualquer que seja a medicação (de novo ou renovação), tem que fazer parte da
pequena que levamos connosco e cujo panóplia de medicamentos é, digamos que escassa.
O trabalho do farmacêutico é, não só fornecer a medicação prescrita aos
doentes, mas também repor o pequeno stock da clínica local e renovar o
receituário dos doentes crónicos que, na sua grande maioria, já estão há várias
semanas sem fazer medicação, por esta ter terminado.
A manhã foi longa… a sala que continha apenas uma mesa,
algumas cadeiras, uma “marquesa” e nenhuma privacidade permitiu ver cerca de 40
doentes e, dadas todas as limitações, trata-los da melhor maneira possível. Foi
sem dúvida uma experiência diferente, mas gratificante. Sem dúvida um dos
pontos altos deste elective e que espero ainda ter oportunidade de repetir.
| Eu com o Dr. Jilini no nosso consultório bastante privado como podem observar :) |
No regresso ao barco tive direito a um pequeno guia, que me
acompanhou ao longo de todo o caminho e que fez questão de estar presente até o
barco partir.
| Aqui está o meu pequeno guia ;) |
Em termos de peso, o barco certamente partiu mais leve, mas eu
parti certamente mais rico com esta pequena experiência!
Beijinhos, abraços e até breve *
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