O meu nome é João Tavares e sou estudante do 4º ano do Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve. Integrado no Plano Curricular deste último ano está um estágio designado por Elective, onde somos encorajados a sair de Portugal e idealmente da Europa, de modo a experimentar realidades diferentes da nossa.
Por isso, a partir de dia 5 de Janeiro e durante aproximadamente 7 semanas, vou realizar um estágio no Hospital de Gizo, Hospital de Referência da Província Oeste, nas Ilhas Salomão, país onde a população é extremamente pobre e onde os recursos humanos e materiais são muito escassos.

Vai certamente ser uma experiência marcante tanto a nível pessoal, como profissional e que espero me venha a fazer crescer não apenas como médico, mas sobretudo como Ser Humano.

Durante as próximas semanas, vou tentar manter-vos atualizados sobre as principais ocorrências desta "aventura"!

My name is João Tavares and I'm going from Portugal all the way to Gizo, Solomon Islands to spend 7 weeks in a Medical Elective. It will surely be one of the craziest experiences of my life!

Surely is going to an amazing experience both personaly and professional and one which I hope that will help me become a better doctor, and specially a better Human Being.

During the duration of the Elective I will try and keep you updated on the main events of this adventure
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A vida de um estudante de medicina no Hospital de Gizo!



Bem, já lá vão 3 semanas desde que comecei o meu Elective no Hospital de Gizo. Neste momento já sou capaz de falar da experiência que está a ser a prática de medicina no outro lado do mundo…


As diferenças são muitas, em alguns casos até abismais. Semelhanças?! Há de facto algumas que certamente se aperceberam no decorrer deste post.

O hospital é essencialmente dividido em 4 valências – Outpatient Department (OPD), uma espécie de clínica de cuidados de saúde primários; Emergency Department (ED), o equivalente a qualquer urgência hospitalar; Children, Female, Maternity e Male Wards, ou seja, as unidades com os doentes internados; e finalmente o Operating Theather que, como o próprio nome indica, é o Bloco Operatório.

Em termos de atividades hospitalares, o horário semanal é sempre muito semelhante. O ED está aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana e tem sempre pelo menos um enfermeiro 24 sobre 24 horas. Fora de horas existe uma escala com o médico que está de urgência e o respetivo contacto para que, em caso de necessidade, este seja contactado e se desloque até ao hospital. É no ED que são observados todos os doentes com queixas agudas, quer venham por iniciativa própria, quer venham encaminhados das múltiplas clínicas dispersas por toda a província Oeste. 
Aqui está uma foto do ED (Urgência Hospitalar de Gizo).
De um modo geral os doentes são vistos primeiro por um enfermeiro que regista de forma breve as queixas do doente e avalia os sinais vitais, preenchendo posteriormente a ficha de admissão do doente no ED. Posteriormente essa mesma ficha, juntamente com o “logbook” dos registos médicos do doente são colocados em cima do balcão, para que sejam avaliados por um dos médicos/estudantes presentes que darão seguimento ao caso, realizando a história clínica seguida do exame físico, definindo posteriormente as hipóteses de diagnóstico diferencial e finalmente traçando um plano de acção, que pode incluir a realização de uma vasta gama de exames complementares de diagnóstico… ups! Risquem esta última parte da vasta gama de exames complementares de diagnóstico, pois apenas estão à disposição análises sanguíneas básicas, nomeadamente hemograma completo e VS, na maior parte das vezes ionograma e pouco mais.

Este é a ficha clínica do doente e o "logbook"
Coisas tão simples como função hepática ou tiroideia têm que ser enviadas para a capital, Honiara, e os resultados levam cerca de um mês. Outras investigações possíveis incluem Rx, ECG e ecografia de partes moles, abdominal e pélvica. Finalmente depois de obter todos os dados possíveis é definida a hipótese de diagnóstico mais provável (com maior ou menor grau de certeza) é iniciado o tratamento. O tempo médio de admissão é muito variável, podendo ser de apenas algumas horas até vários dias, dependendo do caso. Em última instância, os doentes podem ser enviados para o Hospital Central em Honiara, a fim de receberem cuidados mais diferenciados do que aqueles que é possível prestar aqui em Gizo. 
Às segundas, quartas e Sextas-feiras é geralmente dia de OPD, o que significa que pessoas dos quatro cantos de Ghizo (a Ilha, já que a cidade é Gizo), ou mesmo de outras ilhas se deslocam ao hospital a fim de serem observadas e nos casos necessários, tratadas. Tal como no ED, também os doentes são primeiro triados por um dos enfermeiros presentes e aqueles que necessitam são posteriormente encaminhados para observação por um médico.

Na maior parte dos dias, este trabalho é feito pelos estudantes de Elective no Hospital, ou seja, neste momento por mim e pelo Joel, um colega Nova Zelandês que também se encontra cá. Até à semana passada estava cá o Rob, um colega australiano que terminou o Elective e na Terça-feira e regressou à Austrália. Quando temos dúvidas e não conseguimos esclarecer um com o outro procuramos um dos médicos presentes no hospital de forma a definirmos em conjunto o plano de acção. Esta tarefa é mais ou menos difícil consoante o número de médicos presentes no hospital, que pode variar entre nenhum (sim, nenhum!!!) e todos (que são 4 ou 5). Ainda assim, as coisas funcionam bastante bem e são observados cerca de 20 doentes num dia de OPD.

Às terças e quintas-feiras, como não há OPD, é dia de Bloco Operatório. Aqui, com excepção das Surgical Tours, apenas são realizados alguns procedimentos simples, nomeadamente drenagem de abcessos, desbridamento e limpeza de feridas, pequenas amputações, curetagens e esterilizações femininas por via aberta. Qualquer que seja o procedimento, a ajuda é sempre bem-vinda. A lavagem/desinfeção das mãos é feita com recurso a um sabonete comum e a utilização esterilizadas é deixada para os procedimentos com maior risco de infeção, geralmente as esterilizações. Tudo o resto é feito utilizando apenas luvas esterilizadas, incluindo os desbridamentos e limpezas de feridas e as amputações. A assepsia está claramente overrated aqui em Gizo, eheheh ;)


Finalmente existem os internamentos. Não existe propriamente um regra no que diz respeito às visitas aos internamentos e revisão dos doentes e terapêutica, mas geralmente é feita sempre pelo mesmo médico ou médicos e a frequência é variável e depende sobretudo do volume de trabalho nos outros departamentos que já vos falei acima.
Quanto a mim, tento acompanhar sobretudo a visita à Children Ward diariamente e todos os dias começo na maternidade a examinar os recém-nascidos que nasceram na tarde e noite do dia anterior. Parece-me sobretudo uma forma alegre de começar o dia já que, felizmente, até agora todos têm nascido saudáveis e sem problemas major.
Deixo vos aqui esta foto do manual de tratamento para as crianças. ;)

Depois, geralmente passamos sempre pelo ED, onde observamos e encaminhamos os doentes que estão à espera de serem vistos, quer seja através da realização de exames, quer propondo tratamento que, em caso de dúvidas, confirmamos sempre com algum dos médicos. A comunicação com os doentes nem sempre é fácil, mesmo já conseguindo dizer umas coisas em Pidgin, por isso a colaboração dos enfermeiros é fundamental, pois são estes que muitas vezes ajudam a traduzir a conversa. Finalmente, às segundas, quartas e sextas vou para a OPD, onde passo o resto do dia de trabalho e as terças e quintas vou para o bloco ajudar o médico que lá estiver. Felizmente ao longo destas semanas tenho conseguido fazer bastantes coisas, apesar de haver dias mais movimentados do que outros.
É verdade, apenas para vos aguçar o apetite… Semanalmente, às quartas-feiras, existem visitas a algumas das muitas clínicas situadas na província Oeste, geralmente situadas em vilas onde não existem tão pouco eletricidade ou água canalizada e as casas situam-se no meio de floresta cerrada. Estas visitas iniciaram-se há duas semanas e têm como principal objetivo fazer o follow-up dos doentes crónicos, nomeada e principalmente hipertensos e diabéticos. A viagem é feita de barco e é bastante dura, mas vale bem a pena! Bem, mas já estou a falar de mais! Este tema ficará para um post futuro.

Beijinhos e abraços a todos ;)
 
Acham que esta imagem vos aguça o apetite para o meu próximo post?! ;) Ahahahah Até breve.. :)

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