O meu nome é João Tavares e sou estudante do 4º ano do Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve. Integrado no Plano Curricular deste último ano está um estágio designado por Elective, onde somos encorajados a sair de Portugal e idealmente da Europa, de modo a experimentar realidades diferentes da nossa.
Por isso, a partir de dia 5 de Janeiro e durante aproximadamente 7 semanas, vou realizar um estágio no Hospital de Gizo, Hospital de Referência da Província Oeste, nas Ilhas Salomão, país onde a população é extremamente pobre e onde os recursos humanos e materiais são muito escassos.

Vai certamente ser uma experiência marcante tanto a nível pessoal, como profissional e que espero me venha a fazer crescer não apenas como médico, mas sobretudo como Ser Humano.

Durante as próximas semanas, vou tentar manter-vos atualizados sobre as principais ocorrências desta "aventura"!

My name is João Tavares and I'm going from Portugal all the way to Gizo, Solomon Islands to spend 7 weeks in a Medical Elective. It will surely be one of the craziest experiences of my life!

Surely is going to an amazing experience both personaly and professional and one which I hope that will help me become a better doctor, and specially a better Human Being.

During the duration of the Elective I will try and keep you updated on the main events of this adventure
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Há Vida fora do Hospital: Parte 1



 

 

AVISO 

 

Este post contém imagens que podem ferir a suscetibilidade dos mais invejosos e no geral, gerar uma certa dor de cotovelo…






Alguém é servido? Eheheheh :)


Bem, aqueles que pensam que a minha vida tem sido só trabalho estão absolutamente certos, pois realmente o hospital tem ocupado bastante do meu tempo. Mesmo assim, tem sido possível aproveitar algumas das coisas que as ilhas do pacífico têm para oferecer.



A verdade é que em Gizo não há muito para fazer… enganam-se, tal como eu me enganei, aqueles que achavam que todos os dias depois de sair do hospital era possível ir dar um mergulhinho nas águas quentes do pacífico ou relaxar numa qualquer praia paradisíaca e com um areal a perder de vista. Para se conseguir ter acesso a praias paradisíacas e com águas cristalinas é preciso escolher uma de duas opções.

A primeira opção é apanhar um dos vários camiões de caixa aberta que fazem diariamente (com exceção dos domingos) a viagem até ao outro lado de Ghizo (uma espécie de autocarro da carreira), mais concretamente até Peilogue, um recanto “secreto”, muito apreciado pelos surfistas. 


A viagem leva cerca de 1 hora e é feita a um ritmo lento, pois toda a estrada é em terra batida, cheias de buracos e com múltiplas paragens para apanhar ou deixar passageiros. Pelo caminho passamos por várias pequenas vilas, algumas delas com apenas duas ou três casas que, tal como em Pienuna (vila onde se localiza a clínica do post anterior que, by the way, se situação na Ilha de Rannonga) são em geral feitas de madeira. 

A estrada serpenteia por entre pequenos vales e colinas e às vezes no meio de floresta cerrada sendo, ao contrário de Gizo, frequente verem-se papagaios de várias cores e tamanhos, em bandos ou pequenos grupos a voarem entre as copas das árvores. Num instante estão lá e no instante seguinte já desapareceram. 

Também ao contrário de Gizo, é comum ver-se crianças a correr no meio da rua, todas despidas e completamente indiferentes ao facto de estarem a ser vistas por várias pessoas. O que certamente não passa indiferente é a presença de pessoas de fora que, naturalmente, se destacam pela sua tez mais pálida e que são alvo de risota e acenos, por parte dos mais jovens.


Na chegada a Peilogue somos muito bem recebidos pelo Ben, um local que está a montar um EcoResort, onde em geral ficam os surfistas que conhecem o “segredo”, e que nos acolhe e proporciona um dia muito bem passado. No dia de hoje, estávamos 3 estudantes de elective, eu, o Joel (Nova Zelândia) e a Beth (UK) e ainda três “cotas” surfistas que estavam em Peilogue há cerca de 1 semana a surfar e a relaxar. 

O objetivo do dia passava por ir de barco até à Danny Island (que foi deixada pelo anterior dono ao Danny Kennedy, dono da Dive Gizo) onde iriamos fazer snorkeling, almoçar, relaxar e até aventurar-nos nas artes pesqueiras locais. Assim sendo, Nós os 6, o Ben, um guia e mais dois ajudantes metemo-nos num barco com um motor de apenas 15 cavalos, rumo ao nosso destino. No caminho tivemos oportunidade de, por mais de uma vez, avistar grupos de golfinhos que infelizmente não se aproximaram o suficiente do barco para permitir qualquer tipo de interação.

Após cerca de uma hora de viagem chegamos ao nosso destino, cheios de calor e prontos para dar um mergulho nas nada refrescantes águas quentes do pacífico (onde as temperaturas rondam os 28ºC). Por isso, assim que recebemos as instruções do guia sobre o melhor percurso para o snorkeling, foi só fazer-nos ao mar e aproveitar aquele que é provavelmente um dos melhores lugares do mundo para esta prática. 

Digam lá parece ou não uma imagem de um postal?! ;)

A visão é pura e simplesmente indescritível! Peixes de todas as cores, tamanhos e feitios, estrelas-do-mar azul vivo, tubarões do recife, enfim, uma quantidade infindável de cor e vida. Por isso melhor do que palavras, ficam algumas das imagens... É sem dúvida uma experiência que vale a pena.


Passei certamente mais de duas horas dentro de água e teria passado certamente mais duas, mas a fome já apertava, pois o pequeno-almoço tomado por volta das 6h30 da manhã já ia quase no final do trajeto, tal como o donut comido ainda antes da partida rumo à Danny Island.

O almoço foi volante… umas “sandochas” de Chili Tayo, que é como quem diz atum picante, acompanhadas por um ananás de provocar picos astronómicos de hiperglicemia a qualquer diabético, bem como uma papaia de comer e chorar por mais. 


Depois vieram 5 minutos de relax, que nada mais é do que dar uma voltinha pela ilha e tirar uma fotos, antes de voltar novamente a pegar na máscara e barbatanas e iniciar outro percurso de snorkeling.


Nos entretantos ainda tentamos pescar alguma coisa, mas perante o sol abrasador e mais de 30 graus, rapidamente desistimos do esforço que certamente iria ser infrutífero e voltamos para a piscina de água aquecida.

Tal como esta criança... eheheh
 
Foi sem dúvida um dia muito bem passado e também muito cansativo, de tal forma que a viagem de regresso foi feita praticamente em silêncio com cada um a dormitar para seu lado. 

À chegada a Peilogue, depois de várias horas dentro de água salgada, foi extremamente revitalizante tomar um duche com água vinda diretamente de uma nascente situada no interior da ilha que, graças à construção de um sistema de bombeamento abastece as várias vilas localizadas nesta zona da ilha e que, ao contrário da água da chuva que utilizamos em Gizo, é perfeitamente segura de se beber.

Como tínhamos levado um enorme peixe, tínhamos à nossa espera um repasto que continha um caril à moda das ilhas Salomão e uns bocados de peixe frito, ambos feitos com o peixe trazido por nós, acompanhados de arroz branco e batata-doce frita. Até eu, que inicialmente não tinha fome, não consegui resistir ao chamamento e acabei também a deliciar-me com esta magnífica refeição.


Depois das despedidas dos nossos companheiros de aventura, do Ben e ajudantes, foi hora de voltar novamente a saltar para a parte de trás do camião e fazer o caminho de regresso, cansados e muito satisfeitos por um dia magnífico.



Beijinhos e abraços a todos *




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

As clínicas



Tal como tinha referido no último post, semanalmente, às quartas-feiras, existem visitas a algumas das muitas clínicas situadas na província Oeste, geralmente localizadas em vilas remotas, cujo acesso ao Hospital de Gizo é, no mínimo, complicado, e têm como principal objetivo fazer o follow-up dos doentes crónicos, nomeada e principalmente hipertensos e diabéticos. A viagem é feita de barco e é bastante dura, mas vale bem a pena…
Aqui está o barco em que vamos até às clínicas das outras ilhas...
O dia começa cedo, por volta das 6h30 da manhã, com a concentração perto do antigo hospital, onde estão os barcos que permitem fazer a viagem. Aí juntam-se não só os médicos e estudantes de elective, mas também responsáveis pela farmácia e os próprios “comandantes” das várias embarcações. Apesar de estar prevista a saída antes das 7h da manhã, tal raramente acontece, umas vezes porque o médico X se atrasa outras porque se tem que esperar pelo almoço, que é preparado na cozinha do hospital.

Partem geralmente duas equipas com destinos diferentes, sendo estas normalmente constituídas por um médico, um farmacêutico e, no meu caso, um estudante de elective J não é necessária a ida de um enfermeiro, pois todas estas clínicas têm um enfermeiro.

A viagem é então feita em pleno oceano pacífico, por entre as várias ilhas que constituem a província Oeste das Ilhas Salomão e demora mais ou menos tempo, consoante a distância até à clínica a visitar e também à cavalagem do motor de cada barco (40 ou 70 cavalos). Geralmente as viagens variam entre 45 minutos e 4 horas e conforme o estado do mar, podem ser mais ou menos agitadas e mais ou menos molhadas. Tal como referi no início, a viagem é dura, mas vale o esforço pois à chegada deparamo-nos com uma realidade diferente daquela a que estamos habituados em Gizo e incomparável à realidade do nosso País.


A viagem durou cerca de 1h45 e levou-me até à pequena vila de Pienuna, localizada numa ilha cujo nome agora me escapa, mas que é relativamente próxima de Gizo. Esta ilha tem a particularidade de estar localizada muito próximo do epicentro do grande terramoto que ocorreu em 2007 e que deu origem ao Tsumami que provocou algum caos e destruição na sua passagem e que fez com que a ilha subisse cerca de 2 metros em relação ao nível do mar! Sim, perceberam bem, a ilha subiu em relação ao nível do mar e isso é perfeitamente visível pois agora estão a descoberto rochas que outrora estiveram submersas e que por isso não contém qualquer vegetação, ao contrário do resto da ilha, que sempre esteve acima do nível do mar. 
 
Pienuna é constituída por meia dúzia de casas, todas elas feitas exclusivamente em madeira e com telhados feitos de folhas e outras ervas secas, dispersas por zonas de floresta e pequenos descampados, a apenas alguns metros do mar. 

Todas as casas, com excepção da clínica, encontram-se colocadas sobre pilares de madeira, mais ou menos trabalhados, de modo a que distem cerca de 2 metros do chão, de forma a permitira a passagem de agua por baixo e evitar a sua destruição em caso de tsunami.

Reparem no pormenor dos paus trabalhados em que a casa está suspensa...

O barco parou numa pequena baia situada a cerca de 10 minutos a pé do centro da vila, onde se localiza a clínica. Apesar de curta, a viagem foi bastante tortuosa, uma vez que chovera bastante nos dias anteriores e havia por isso muita lama. 

A clínica de Pienuna foi construída em 1975 e isso é bem visível no seu estado de conservação, já que uma grande parte das janelas já não existe, a tinta das paredes está já muito desgastada e apresenta inclusive algumas rachas de dimensões consideráveis provocadas pelo terramoto de 2007.

A sala de espera da clínica...
Rapidamente a nossa chegada se fez anunciar e várias pessoas começaram a aparecer junto na clínica. Na sua maioria eram pessoas que queriam aproveitar a nossa visita para serem vistas por um médico, pois apresentavam alguma queixa. Havia também alguns doentes crónicos, nomeada e principalmente diabéticos, hipertensos e asmáticos que aproveitaram a ocasião para serem reavaliados. Estes casos são o principal objetivo destas visitas, pois pretende-se com elas atrasar ao máximo todas as complicações inerentes principalmente à hipertensão e à diabetes, pois estes doentes, pela dificuldade que têm em deslocar-se até Gizo, apenas se deslocam ao hospital em último caso, onde acabam com frequência a ficar internados muito tempo e onde os danos já são muitas vezes irreversíveis.

Rapidamente perceberam também que havia um elemento novo na equação… Eu, um sujeito vários tons de pele abaixo da cor natural local e que rapidamente virou foco de atenção de vários curiosos, principalmente das crianças. Mais uma vez pude comprovar a simpatia e a simplicidade das pessoas desta humilde terra, pois não há cara onde não se veja um sorriso ou doente do qual não se oiça uma palavra de agradecimento no final.

Como disse no principio deste post, na equipa consta um farmacêutico, uma vez não existe nenhuma farmácia nesta ilha e portanto qualquer que seja a medicação (de novo ou renovação), tem que fazer parte da pequena que levamos connosco e cujo panóplia de medicamentos é, digamos que escassa. O trabalho do farmacêutico é, não só fornecer a medicação prescrita aos doentes, mas também repor o pequeno stock da clínica local e renovar o receituário dos doentes crónicos que, na sua grande maioria, já estão há várias semanas sem fazer medicação, por esta ter terminado.

A manhã foi longa… a sala que continha apenas uma mesa, algumas cadeiras, uma “marquesa” e nenhuma privacidade permitiu ver cerca de 40 doentes e, dadas todas as limitações, trata-los da melhor maneira possível. Foi sem dúvida uma experiência diferente, mas gratificante. Sem dúvida um dos pontos altos deste elective e que espero ainda ter oportunidade de repetir.

Eu com o Dr. Jilini no nosso consultório bastante privado como podem observar :)
No regresso ao barco tive direito a um pequeno guia, que me acompanhou ao longo de todo o caminho e que fez questão de estar presente até o barco partir. 
Aqui está o meu pequeno guia ;)
Em termos de peso, o barco certamente partiu mais leve, mas eu parti certamente mais rico com esta pequena experiência!

Beijinhos, abraços e até breve *

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A vida de um estudante de medicina no Hospital de Gizo!



Bem, já lá vão 3 semanas desde que comecei o meu Elective no Hospital de Gizo. Neste momento já sou capaz de falar da experiência que está a ser a prática de medicina no outro lado do mundo…


As diferenças são muitas, em alguns casos até abismais. Semelhanças?! Há de facto algumas que certamente se aperceberam no decorrer deste post.

O hospital é essencialmente dividido em 4 valências – Outpatient Department (OPD), uma espécie de clínica de cuidados de saúde primários; Emergency Department (ED), o equivalente a qualquer urgência hospitalar; Children, Female, Maternity e Male Wards, ou seja, as unidades com os doentes internados; e finalmente o Operating Theather que, como o próprio nome indica, é o Bloco Operatório.

Em termos de atividades hospitalares, o horário semanal é sempre muito semelhante. O ED está aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana e tem sempre pelo menos um enfermeiro 24 sobre 24 horas. Fora de horas existe uma escala com o médico que está de urgência e o respetivo contacto para que, em caso de necessidade, este seja contactado e se desloque até ao hospital. É no ED que são observados todos os doentes com queixas agudas, quer venham por iniciativa própria, quer venham encaminhados das múltiplas clínicas dispersas por toda a província Oeste. 
Aqui está uma foto do ED (Urgência Hospitalar de Gizo).
De um modo geral os doentes são vistos primeiro por um enfermeiro que regista de forma breve as queixas do doente e avalia os sinais vitais, preenchendo posteriormente a ficha de admissão do doente no ED. Posteriormente essa mesma ficha, juntamente com o “logbook” dos registos médicos do doente são colocados em cima do balcão, para que sejam avaliados por um dos médicos/estudantes presentes que darão seguimento ao caso, realizando a história clínica seguida do exame físico, definindo posteriormente as hipóteses de diagnóstico diferencial e finalmente traçando um plano de acção, que pode incluir a realização de uma vasta gama de exames complementares de diagnóstico… ups! Risquem esta última parte da vasta gama de exames complementares de diagnóstico, pois apenas estão à disposição análises sanguíneas básicas, nomeadamente hemograma completo e VS, na maior parte das vezes ionograma e pouco mais.

Este é a ficha clínica do doente e o "logbook"
Coisas tão simples como função hepática ou tiroideia têm que ser enviadas para a capital, Honiara, e os resultados levam cerca de um mês. Outras investigações possíveis incluem Rx, ECG e ecografia de partes moles, abdominal e pélvica. Finalmente depois de obter todos os dados possíveis é definida a hipótese de diagnóstico mais provável (com maior ou menor grau de certeza) é iniciado o tratamento. O tempo médio de admissão é muito variável, podendo ser de apenas algumas horas até vários dias, dependendo do caso. Em última instância, os doentes podem ser enviados para o Hospital Central em Honiara, a fim de receberem cuidados mais diferenciados do que aqueles que é possível prestar aqui em Gizo. 
Às segundas, quartas e Sextas-feiras é geralmente dia de OPD, o que significa que pessoas dos quatro cantos de Ghizo (a Ilha, já que a cidade é Gizo), ou mesmo de outras ilhas se deslocam ao hospital a fim de serem observadas e nos casos necessários, tratadas. Tal como no ED, também os doentes são primeiro triados por um dos enfermeiros presentes e aqueles que necessitam são posteriormente encaminhados para observação por um médico.

Na maior parte dos dias, este trabalho é feito pelos estudantes de Elective no Hospital, ou seja, neste momento por mim e pelo Joel, um colega Nova Zelandês que também se encontra cá. Até à semana passada estava cá o Rob, um colega australiano que terminou o Elective e na Terça-feira e regressou à Austrália. Quando temos dúvidas e não conseguimos esclarecer um com o outro procuramos um dos médicos presentes no hospital de forma a definirmos em conjunto o plano de acção. Esta tarefa é mais ou menos difícil consoante o número de médicos presentes no hospital, que pode variar entre nenhum (sim, nenhum!!!) e todos (que são 4 ou 5). Ainda assim, as coisas funcionam bastante bem e são observados cerca de 20 doentes num dia de OPD.

Às terças e quintas-feiras, como não há OPD, é dia de Bloco Operatório. Aqui, com excepção das Surgical Tours, apenas são realizados alguns procedimentos simples, nomeadamente drenagem de abcessos, desbridamento e limpeza de feridas, pequenas amputações, curetagens e esterilizações femininas por via aberta. Qualquer que seja o procedimento, a ajuda é sempre bem-vinda. A lavagem/desinfeção das mãos é feita com recurso a um sabonete comum e a utilização esterilizadas é deixada para os procedimentos com maior risco de infeção, geralmente as esterilizações. Tudo o resto é feito utilizando apenas luvas esterilizadas, incluindo os desbridamentos e limpezas de feridas e as amputações. A assepsia está claramente overrated aqui em Gizo, eheheh ;)


Finalmente existem os internamentos. Não existe propriamente um regra no que diz respeito às visitas aos internamentos e revisão dos doentes e terapêutica, mas geralmente é feita sempre pelo mesmo médico ou médicos e a frequência é variável e depende sobretudo do volume de trabalho nos outros departamentos que já vos falei acima.
Quanto a mim, tento acompanhar sobretudo a visita à Children Ward diariamente e todos os dias começo na maternidade a examinar os recém-nascidos que nasceram na tarde e noite do dia anterior. Parece-me sobretudo uma forma alegre de começar o dia já que, felizmente, até agora todos têm nascido saudáveis e sem problemas major.
Deixo vos aqui esta foto do manual de tratamento para as crianças. ;)

Depois, geralmente passamos sempre pelo ED, onde observamos e encaminhamos os doentes que estão à espera de serem vistos, quer seja através da realização de exames, quer propondo tratamento que, em caso de dúvidas, confirmamos sempre com algum dos médicos. A comunicação com os doentes nem sempre é fácil, mesmo já conseguindo dizer umas coisas em Pidgin, por isso a colaboração dos enfermeiros é fundamental, pois são estes que muitas vezes ajudam a traduzir a conversa. Finalmente, às segundas, quartas e sextas vou para a OPD, onde passo o resto do dia de trabalho e as terças e quintas vou para o bloco ajudar o médico que lá estiver. Felizmente ao longo destas semanas tenho conseguido fazer bastantes coisas, apesar de haver dias mais movimentados do que outros.
É verdade, apenas para vos aguçar o apetite… Semanalmente, às quartas-feiras, existem visitas a algumas das muitas clínicas situadas na província Oeste, geralmente situadas em vilas onde não existem tão pouco eletricidade ou água canalizada e as casas situam-se no meio de floresta cerrada. Estas visitas iniciaram-se há duas semanas e têm como principal objetivo fazer o follow-up dos doentes crónicos, nomeada e principalmente hipertensos e diabéticos. A viagem é feita de barco e é bastante dura, mas vale bem a pena! Bem, mas já estou a falar de mais! Este tema ficará para um post futuro.

Beijinhos e abraços a todos ;)
 
Acham que esta imagem vos aguça o apetite para o meu próximo post?! ;) Ahahahah Até breve.. :)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Life in Gizo


Bem, estou em Gizo há cerca de duas semanas e a vida aqui é qualquer coisa de muito diferente de tudo aquilo a que estava habituado. Aqui todos os conceitos que temos como adquiridos têm um significado diferente, sejam eles o conforto, ir às compras ou para o trabalho, enfim, tudo!

Começo pelo conceito de conforto… A Phobe’s Resthouse é um local muito humilde que tem o básico e indispensável para estar durante a minha estadia. O quartinho com cerca de 4 m2 tem dois estrados de madeira onde assentam dois retângulos de esponja com 1,90x60 cm onde todas as noites, por volta das 21h30, poiso o esqueleto para descansar. Felizmente que por enquanto estou sozinho, pois não imagino a confusão que seria aquele quarto. Também a cozinha e a casa de banho apresentam o básico dos básicos para, por um lado permitir cozinhar qualquer coisa e por outro manter um estilo de vida muito ocidental com escovagem dos dentes bidiária e um banho diário, claro de água fria.

Os meus aposentos ;)
A melhor parte ficou sem dúvida para o fim, pois o alpendre onde todas as tardes estudo Harrison e todas as noites janto tem aquela que é certamente uma das melhores vistas de toda a ilha, já que fica situada numa encosta, a vários metros de altura do nível do mar. Certamente que aqueles que acompanham o blog já viram a foto de um magnífico nascer do sol tirada desse mesmo alpendre.

Só mais uma foto do alpendre e do tal maravilhoso nascer do sol :)
A vida por estas bandas é muito simples e, com exceção dos fins-de-semana, algo repetitiva. Todos os dias acordo de manhã à hora que o galo entende começar a cantar, geralmente entre as 4h30 e 5h30 da manhã, acabando por me levantar por volta das 6h. Percebem por isso agora o porquê de ir para a cama por volta das 9h30! Depois de me despachar arranco na não longa, mas certamente tortuosa caminhada até ao hospital, que leva cerca de 5 min. A manhã é geralmente passada a realizar várias atividades que mais tarde explicarei em melhor detalhe quando fizer um post apenas sobre o hospital. 

Durante a hora de almoço (geralmente entre as 12h e as 13h30) faço a primeira de duas ou três visitas diárias ao mercado local, onde se pode comprar fruta, legumes e outros vegetais, fish and chips, entre muitas outras coisas que os locais produzem ou confecionam. A variedade de cores e sabores é por isso muita e todos os dias diferente. 

Mercado de Gizo
Nesta fase do dia, para além do atum é difícil encontrar outros tipos de peixe, pois a grande maioria dos pescadores regressa do mar apenas por volta das 15h, altura em que é possível encontrar de tudo um pouco de várias cores, tamanhos e feitios. 
Aqui está alguns exemplares de Atum fresco que compro no mercado!
Nessa fase a fruta e os legumes estão já muito escolhidos, daí que sejam necessárias pelo menos duas visitas diárias ao mercado para comprar tudo o necessário. Uma há hora de almoço e a outra depois de sair do hospital, por volta das 5h da tarde.
Mais uma banca de peixe do Mercado.

Aqui deixo vos a titulo de curiosidade uma foto desta família que estava no mercado a vender os seus produtos ;)

As restantes coisas que são necessárias em termos de alimentação, nomeadamente a agua engarrafada, o leite, o arroz ou algumas especiarias, entre muitas outras coisas têm que ser compradas nos “chineses”. Sim, perceberam bem, na loja dos chineses! Até neste recanto tão longínquo do mundo existem lojas de chineses e engane-se quem pense que é apenas uma ou duas, pois são pelo menos 4 e estão mais duas em construção!

Depois está na hora de regressar a casa, tentar estudar um pouco de Harrison e finalmente tratar do jantar. A alimentação é feita, como certamente já perceberam, à base de fruta, peixe e legumes, na maior parte das vezes acompanhados de arroz ou noodles. Felizmente hoje, numa dos raros almoços feitos num dos restaurantes locais, consegui comer algo de diferente e que me soube maravilhosamente bem e que foi Lagosta! Sim, LAGOSTA!! Por cerca de 5 euros comi uma bela refeição de lagosta com molho agridoce, acompanhada de arroz e salada. Simplesmente divinal e sem dúvida para repetir.

Aqui está a maravilhosa Lagosta ;)
Com tudo isto, está na hora de ir dormir, que a loiça já está lavada e a cozinha arrumada e já deu o Vitinho Salomão, que são 9h30.

Beijinhos, abraços e até amanhã ;)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Chuva e mais chuva...



Chuva, Galos e… mais chuva!

Bem, quando iniciei esta aventura sabia que vinha para um país com um clima tropical, o que significa que tanto está um sol abrasador, como no dia seguinte chove tanto que parece que vai acabar o Mundo. A verdade é que, quando cheguei a Gizo estava um sol fantástico e certamente mais de 30 graus e, ao contrário do que esperava, o tempo era seco, bastante seco até! Rapidamente percebi que há já várias semanas que não chovia, tanto que os níveis de água nos tanques da Phoebe’s Resthouse, estavam “perigosamente” baixos e portanto aconselhavam a ter alguns cuidados com o racionamento de água.

De facto, os primeiros dias em Gizo foram com muito sol e muito calor. Dormir à noite era complicado e apenas era possível com a ventoinha a apontar diretamente para mim, na velocidade máxima, e mesmo assim o calor era muito. Mais difícil de suportar que o calor foi acordar no primeiro dia por volta das 4h da manhã e não conseguir voltar a pregar olho! Enganam-se aqueles que pensam tratar-se simplesmente de jet lag! O culpado foi um galo que pernoita em cima de uma árvore a apenas alguns metros da minha janela e cujo relógio biológico está claramente desafinado, pois a essa hora não havia sequer um vislumbre de sol! Se tenho a certeza?! Tenho! Pois consegui fotografar o nascer do sol, por volta das 5h45 da manhã! E sim, TODOS os dias entre as 4h e as 5h da manhã o sr. Galo canta e acorda todos os residentes das imediações. Se a internet o permitisse, já haveria certamente grupos no FB a pedir a “demissão” do presidente do galinheiro!

Nascer do Sol em Gizo

Enfim, a verdade é que o sol e o calor insuportável foram de pouca duração. No sábado começou a “época das monções”. Choveu, choveu… choveu, como nunca tinha visto chover. Durante uma semana inteira, pura e simplesmente não parou! Foram milhares e milhares de litros de água que alagaram Gizo de uma ponta à outra. Sair de casa de manhã a chover, chover durante todo o dia de trabalho e voltara para casa ainda a chover. Foi uma longa semana em que apenas raramente foi possível ver o sol. Lado positivo?! Bem, o único lado positivo foi que agora os tanques de água estão a transbordar e temos certamente água para aguentar as próximas semanas, mesmo que não chova e que faça um calor abrasador.

Pelo meio consegui andar “à procura do Nemo”, mas essa aventura fica para depois. Hoje, que finalmente parou de chover e é fim de semana, vou aproveitar para fazer um bocadinho de praia e relaxar ;) Esperem por notícias, pois vou tentar ser mais frequente nos meus posts, até porque já tenho alguns bem interessantes em vista.

Até breve!